sábado, 24 de agosto de 2013






Amor é bicho instruído



  Amor é bicho instruído Olha: o amor pulou o muro    o amor subiu na árvore em tempo de se estrepar.   Pronto, o amor se estrepou. Daqui estou vendo o    sangue que escorre do corpo andrógino. Essa    ferida, meu bem às vezes não sara nunca às vezes   sara amanhã.
 Carlos Drummond de Andrade

Quando o amor chegar







Esta paz que sentes no peito É coisa passageira, É apenas calmaria, Prepara-te para a tempestade! Assim é a vida... Não te dará trégua, Deixar-te-á apenas descansar. O turbilhão está nascendo Em teu peito. Aquela bandida está chegando... Está invadindo tua intimidade... Já não irás dormir esta noite, Teus pensamentos serão roubados. É o amor que vem! Chega sem pedir-te licença, Acomodando-se em teu peito,

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sonhos 

 
Ter um sonho, um sonho lindo,
Noite branda de luar,
Que se sonhasse a sorrir...
Que se sonhasse a chorar...
Ter um sonho, que nos fosse
A vida, a luz, o alento,
Que a sonhar beijasse doce
A nossa boca... um lamento...
Ser pra nós o guia, o norte,
Na vida o único trilho;
E depois ver vir a morte
Despedaçar esses laços!...
...É pior que ter um filho
Que nos morresse nos braços! 


  
Súplica 

 

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.
O meu colo é arninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!
Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d'astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!
Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente...
 Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! ...
Vem para mim, amor... Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!... 

  
Amo... 
 

 as pedras, os astros e o luar que beija as ervas do atalho escuro,
Amo as águas de anil e o doce olhar dos animais, divinamente puro.
Amo a hera que entende a voz do muro e dos sapos, o brando tilintar
De cristais que se que se afagam devagar,
E da minha charneca o rosto duro.
Amo todos os sonhos que se calam
De corações que sentem e não falam,
Tudo o que é Infinito e pequenino!
Asa que nos protege a todos nós!
Soluço imenso, eterno, que é a voz
Do nosso grande e mísero Destino!...
No desequilíbrio dos mares, as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas, a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva dentro destas águas sem fim.
  
Amar
 
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
mais este e aquele, o outro e a toda gente...
Amar! Amar!
E não amar ninguém! recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disse que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que eu saiba me perder... pra te encontrar... 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Hoje, mais um dia
dessa minha jornada
em busca de me sentir feliz.
Mais um dia ofertado,
enrolado no branco a ser esboçado
o que ainda não fiz...
O que me escapa das mãos
e traz a sensação do inacabado os que não realizei.
Sentam-se à beira da cama,
projetam em minha ’alma
o que ela reclama
quando o dia termina
e há muito por fazer.
O amigo que não abracei,
a flor que jamais cultivei,
o vizinho que fica ao meu lado
e despercebido, nem é relembrado.
O certo mantido calado,
o errado bem alto, bradado,
e agora não têm mais razão de ser.
Certo ou errado?
Quem pode julgar ou ser julgado?
A tristeza de minha poesia
que às vezes mantém o leitor afastado.
A alegria que meu eu contagia
e em meus versos nem sempre é exaltada.
As lágrimas que deixo rolar
sem a humildade de as compartilhar...
A primavera que em mim existia
e hoje já não me encanta mais.
Quero com ela renascer...
Ser flor, ser cor ou simplesmente ser.
Hoje me é dado mais um dia...
Dia de ver os sonhos realizados.