quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Saudades

Florbela Espanca



Saudades! Sim... talvez... e porque não? Se o nosso sonho foi tão alto e forte Que bem pensara vê-lo até à morte Deslumbrar-me de luz o coração! Esquecer! Para quê?... Ah! como é vão! Que tudo isso, Amor, nos não importe. Se ele deixou beleza que conforte Deve-nos ser sagrado como pão! Quantas vezes, Amor, já te esqueci, Para mais doidamente me lembrar, Mais doidamente me lembrar de ti! E quem dera que fosse sempre assim: Quanto menos quisesse recordar Mais a saudade andasse presa a mim!

Eu

Florbela Espanca



Eu sou a que no mundo anda perdida, Eu sou a que na vida não tem norte, Sou a irmã do Sonho,e desta sorte Sou a crucificada ... a dolorida ... Sombra de névoa tênue e esvaecida, E que o destino amargo, triste e forte, Impele brutalmente para a morte! Alma de luto sempre incompreendida!... Sou aquela que passa e ninguém vê... Sou a que chamam triste sem o ser... Sou a que chora sem saber porquê... Sou talvez a visão que Alguém sonhou, Alguém que veio ao mundo pra me ver, E que nunca na vida me encontrou!

A nossa casa

Florbela Espanca



A nossa casa, Amor, a nossa casa! Onde está ela, Amor, que não a vejo?
 Na minha doida fantasia em brasa Constroi-a, num instante, o meu desejo! 
 Onde está ela, Amor, a nossa casa,
 O bem que neste mundo mais invejo?
 O brando ninho aonde o nosso beijo Será mais puro e doce que uma asa?
 Sonho...que eu e tu, dois pobrezinhos,
 Andamos de mãos dadas, nos caminhos Duma terra de rosas, num jardim, 
 Num país de ilusão que nunca vi... E que eu moro - tão bom! - 
Dentro de ti E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

Os meus versos

Florbela Espanca



         Rasga esses versos que eu te fiz, Amor! Deita-os ao nada, ao pó ao esquecimento,              Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
        Que a tempestade os leve aonde for! Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
        Que volte ao nada o nada dum momento. 
        Julguei-me grande pelo sentimento,
        E pelo orgulho ainda sou maior!... 
        Tanto verso já disse o que eu sonhei! Tantos penaram já o que eu penei! 
        Asas que passam, todo o mundo as sente...
       Rasga os meus versos... 
       Pobre endoidecida! Como se um grande amor cá nesta vida Não fosse o mesmo amor           de toda a gente!

O nosso mundo

Florbela Espanca

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos Como um divino vinho de Falerno Pousando em ti o meu olhar eterno Como pousam as folhas sobre os lagos...
 Os meus sonhos agora são mais vagos
 O teu olhar em mim, hoje é mais terno...
 E a Vida já não é o rubro inferno Todo fantasmas tristes e presságios!
 A Vida, meu amor, quero vivê-la!
 Na mesma taça erguida em tuas mãos,
 Bocas unidas hemos de bebê-la! Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
 Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?... O mundo, Amor!...As nossas bocas juntas!...


Conto de fadas

Florbela Espanca

Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor!
 E para as tuas chagas o ungüento Com que sarei a minha própria dor. 
 Os meus gestos são ondas de Sorrento...
 Trago no nome as letras duma flor... Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintar o vento...
 Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
 O manto dos crepúsculos da tarde, 
O sol que é de ouro, a onda que palpita.
 Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez! 
Eu sou Aquela de quem tens saudade, A princesa de conto"
Era uma vez..."




Mulher

Florbela Espanca




I Um ente de paixão e sacrifício, De sofrimento cheio, eis a mulher! Esmaga o coração dentro do peito, E nem te doas coração, sequer! 
 Sê forte, corajoso, não fraquejes Na luta: sê em Vénus sempre Marte;
 Sempre o mundo é vil e infame e os homens Se te sentem gemer hão-de pisar-te! Se à vezes tu fraquejas, pobrezinho, Essa brancura ideal de puro arminho
 Eles deixam pra sempre maculada;
 E gritam então vis: "Olhem, vejam É aquela a infame!" e apedrejam a pobrezita, a triste, a desgraçada! 
 II Ó Mulher! Como é fraca e como és forte! Como sabes ser doce e desgraçada! Como sabes fingir quando em teu peito
 A tua alma se estorce amargurada! Quantas morrem saudosas duma image Adorada que amaram doidamente! 
Quantas e quantas almas endoidecem Enquanto a boca ri alegremente! 
 Quanta paixão e amor às vezes têm Sem nunca o confessarem a ninguém Doces almas de dor e sofrimento! 
 Paixão que faria a felicidade Dum rei; amor de sonho e de saudade, Que se esvai e que foge num lamento!